February 28, 2009
…assim como você que é artista deve ser horrível com contas.

Colocando dessa maneira, são argumentos absurdos, não? Mas é isso que reparo desde a época que cursei o colégio técnico (de Processamento de Dados). E como estou no ramo de desenvolvimento de jogos e também Computação Gráfica, mais fácil ainda ouvir esses absurdos, já que convivo com programadores, engenheiros, artistas, designers e pessoal de publicidade e marketing.
Não consigo entender direito essa separação e como muitos profissionais, a maioria com formação superior, possuem uma mentalidade tão pequena sobre esse assunto. Até entendo que hoje temos as especializações e equipes grandes para fazer um trabalho - e não estou me referindo apenas a criação de jogos, mas há casos que ao invés de referir à “equipes” posso usar o termo “grupo de pessoas não muito unidas” devido tanta diferença e briguinha existente entre os indivíduos.
Mas ser especialista em uma área deveria te deixar bitolado a ponto de levantar o nariz e achar que o seu trabalho é o mais importante de todos e que quem não é da mesma área deve ser um tonto e nem deve opinar ou sugerir? Em que momento de nossas vidas tomamos esse rumo? Lembro-me bem que, quando criança, tinha aulas de português, matemática, geografia, história, biologia, educação física, educação artística. Olha só, matemática e educação artística, na mesma semana! O que estou tentando dizer é, acho que você consegue ser especialista em uma área e ao mesmo tempo ser razoável em outra que possa ser meio distante da sua especialidade, assim como na escola você se dava bem naturalmente em algumas matérias e em outras você se esforçava para não bombar.
Eu sou daqueles que acha que artes deveria ser inclusa na infância (as crianças gostam de desenhar, não?) e nunca parar. E como você precisa se comunicar, fazer cálculos para ao menos ninguém te enganar, ter um certo conhecimento da legislação, fazer o imposto de renda, etc, etc, também acho que certos conhecimentos devem ser básicos. Deve existir um equilíbrio.
Novamente, não entendo porque profissionais que citei no segundo parágrafo acabam se desentendendo e criticando as outras áreas tão facilmente. O mundo inteiro se beneficiaria se engenheiros e designers/artistas fossem mais compreensivos uns com os outros (não é exagero meu, já que tudo em nossa volta tem artes e ciências aplicadas).
Pensei em não citar frases que já ouvi por aí, mas acho que elas dariam um toque extra ao texto, então seguem algumas pérolas:
“Design é a coisa mais fácil de se fazer” (um engenheiro dando sua opinião para o responsável pelo marketing)
“Esse pessoal veio tudo da engenharia, por isso essa baboseira matemática que ninguém quer ver” (um artista falando sobre as explicações teóricas da Computação Gráfica)
“Designer é tudo papo, só ficam viajando” (um cara de TI e sua visão sobre os designers)
“Aquele programador não entende nada de design, não dá pra trabalhar com ele, é uma perda de tempo ele fazer o site” (designer comentando sobre um programador web)
“Eu sou do criativo, então sei como deve ser a jogabilidade” (alguém de publicidade falando como deveria ser a jogabilidade do jogo)
E três que foram diretamente comigo:
“Nossa! Como assim, você gosta de artes? Você é programador!” (alguém surpreso ao saber que eu gosto e estudo artes)
“Você fez esse curso de marketing? Quem deveria ter feito era eu, que é minha área… quer pegar meu emprego?” (estagiária de marketing ao saber que tinha participado de um curso de férias sobre marketing)
“Essa matéria introdutória de Design Gráfico? Ela fala sobre pixels, conversão de medidas, resolução, essas coisas.” “Ah… E teoria das cores, gestalt, tipografia, balancemento, espaço positivo/negativo, etc, não tem?” “… …O quê?! (com cara de quem não entendeu coisa nenhuma)” (eu questionando o conteúdo de uma matéria sobre design gráfico criada, infelizmente, por um engenheiro que achava que sabia de tudo e que desenho era besteira)
De bônus, alguém pode me explicar por que muitos (muitos, não todos) que trabalham em agências de publicidade e marketing se auto-denominam “os criativos”, acham que sempre estão certos independente do assunto em questão e sempre falam “te dou uma posição sobre o projeto em breve”, “você pode me posicionar no andamento do projeto?”, “na reunião eu te posiciono sobre essas questões”? Onde é que eles aprendem a usar a palavra “posição” em praticamente todas as frases?
É um texto que cutuca e incomoda, mas vai me dizer que você nunca viu isso ou até mesmo compartilha de alguma dessas opiniões?
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